Sexta-feira

Batismo

Das vantagens do livro de papel: existe coisa melhor do que comprar um livro e escrever seu nome na folha de rosto? É feito marcar o gado no mais verdadeiro e genuíno sentimento de posse. É batizá-lo com a sua caligrafia procurando o melhor cantinho para assinalar suas iniciais: acima do logo da editora? Ou abaixo do nome do autor? Mais ao meio da página? Mês e cidade onde ele foi comprado? Nome inteiro? Ou só o primeiro basta? 
São pormenores que dificilmente saberia viver sem. O cheiro da tinta, a grossura da ponta da caneta, a textura da capa, o barulho do virar das folhas, o vestir dos óculos de grau, o prazer do novo, o percorrer maleável sem pretensão de pressa pelas páginas momentos antes da leitura. E a descoberta, enfim, no avançar do dedo e dos olhos em cada palavra. 

Quarta-feira

Desvio de rota

Ter uma viagem cancelada é uma das situações mais frustrantes que existe. Quando a viagem já estava planejada semanas antes, então, a decepção é ainda maior. Em abril, conheci o norte - nortããão - de Portugal, em viagem a Valença. Dessa vez, a ideia era conhecer o extremo sul - sulzão - do país: Faro. Lagos. Algarve. Praia. Sol. Clima mediterrâneo. (Jogue no Google Imagens, você não irá se arrepender...)
Na última quinta-feira, um dia antes da viagem, acordamos com a desagradável surpresa de que, devido à greve, os voos do dia 11 de maio seriam cancelados. Os olhos de quem tinha acabado de acordar mal puderam acreditar. Já havíamos nos programado para o fim de semana, guardado dinheiro, reservado hostel, feito depilação, separado biquíni. E agora?! Bom demais para ser verdade? 
Corremos para cancelar tudo. E demos por nos sentir cabisbaixas o dia inteiro. A gente se sente vazio diante dos imprevistos. Sentimento de falta e de falha. De impossibilidade até. A primeira reação é procurar novas alternativas; "e se...?". Havíamos comprado a passagem mais de um mês antes, a promoção era irresistível e até desconto na hospedagem deu para pegar. O reembolso já foi solicitado e será atendido. Mas... e nossa viagem a Faro? Aí nos damos conta de que as alternativas não são viáveis, de que não temos muito dinheiro e nem tanto tempo assim. Fica pra próxima, dizemos inconformáveis. 
Nessa hora, nessa altura do diário de bordo, eu estaria cheia de histórias das praias paradisíacas do Algarve. Resto de areia no pé, pele queimada, cabelo salgado. Não consegui. Ainda que um bocadinho forçados, às vezes é preciso mudar de direção: olhar para a rosa dos ventos e ver o que ela tem a nos oferecer, ainda que com muito pouco, como naquele papo de fazer do limão a limonada. Segui as coordenadas que tinha disponível e passei o fim de semana no Porto mesmo. Teve alheira de Mirandela de almoço, sorvete na Praça da Liberdade e a brisa de uma primavera portuguesa que voltou a ser quente. E não foi de todo ruim. 
Para qual direção? Valença, Portugal

Domingo

Poeira

Cheguei em casa de tarde depois de uma caminhada que ainda fazia a digestão quando me vi diante desta manchete: Artista sai de favela brasileira e vai a pé até Nova York (Folha de São Paulo). Para resumir a notícia: Paulo Nazareth, 34 anos, é um artista mineiro que vivia em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, e foi de Minas Gerais até Nova York a pé. Levou seis meses e 15 dias na peregrinação e, entre caronas, chinelos no chão e uma única bolsa de pano, calcula ter caminhado 700 km e emagrecido sete quilos. Como é? 

Não pude conter o riso. Melhor ainda foi quando descobri que o artista não lavou os pés durante a viagem. Nem um único dia! No final da jornada, diz ter lavado os pés no rio Hudson. Menciona a reportagem, assinada pela Mônica Bergamo: "Foi como arrancar uma pele. A poeira já fazia parte do meu pé (...). Não lavo os pés quando vou para os EUA para levar um pouco de poeira da América Latina para lá". 

Sempre pensei nessa coisa de levar a poeira do nosso pé para os lugares. Sapato, aliás, é um dos itens do guarda-roupa que mais gosto, principalmente tênis. Quando estava fazendo as minhas malas para vir a Portugal, me vi num dos maiores impasses da minha vida: qual sapato vai? Qual sapato fica? Qual tênis merece conhecer o velho continente? Qual deles terá mais histórias (mais poeira) para espalhar por aí? Qual deixará mais pegadas? 

Lembro muito bem da Marina Morena, amiguíssima também mineira, me dizendo algo semelhante a isso: "quando vou viajar, fico pensando qual sapato será mais justo levar comigo". Será que sempre existe aquele que tem mais direito a conhecer novos lugares? Aquele que tem mais poeira da nossa origem para espalhar? Mais vestígios nossos para deixar em novos cantos do mundo? 

Feito pedra no sapato, fiquei atormentando esses questionamentos a tarde toda. Fiquei sem chão e não achei resposta. A pegada, a sujeira, a poeira... são todas coisas efêmeras, mas que vão se acumulando aos poucos, construindo a nossa história e nossa memória. Como uma calçada da fama, há ainda de se espalhar muita pegada eterna por aí, mesmo que existam buracos pelo caminho, mas, sem pisar em ninguém, percorrer ruas e ruas pela frente. De preferência, é claro, com um sapato confortável. 


Chão do parque do Palácio de Cristal - Porto

Sexta-feira

Caminhos fronteiriços

Na última sexta-feira, fomos ainda mais ao norte e chegamos pertinho da Espanha (ou seria da Galiza?). O destino da viagem foi Valença, um dos pontos da rota do Caminho de Santiago de Portugal. Valença é um concelho que faz parte do distrito de Viana do Castelo e que tem ao norte o Rio Minho, responsável por separar as terras portuguesas das espanholas, que, por sua vez, tem a ponte Eiffel que liga as terras valencianas à cidade espanhola Tui. 

O principal atrativo turístico da cidade é a Praça Forte, fortificação militar cujos primeiros muros foram construídos no século XIII. Dentro da fortificação há um importante centro comercial e muitos espaços destinados ao turismo, em um perímetro exterior com cerca de cinco quilômetros de muros.

Ao fundo, a fortaleza vista de fora; nas miniaturas, a cidade por dentro
Mas, cambaleei ali atrás ao me perguntar se estive próximo da Espanha ou da Galiza. Qual será a resposta correta? Durante o passeio, encontrei diversas placas que indicavam, por exemplo, uma Espanha a 1 km.  Uma Espanha imediatamente sobreposta por uma tinta spray que indicava Galiza. A rixa por lá ainda é muito forte. Um amigo brasileiro me disse que é porque às vezes é difícil esquecer as humilhações vindas do passado. Ainda assim, sonho com um mundo feito slogan de companhia de celular: sem fronteiras. Sem passaporte. Sem brigas entre países. Sem dominação. Sem preconceito. Sem xenofobia.
Espanha ou Galiza, para onde ir? 

Quarta-feira

Música do silêncio

John Cage foi um compositor experimentalista norte-americano nascido em 1912 que tornou-se conhecido pelo silêncio. Parece contraditório para um músico, não? Pois bem: em 1952, compôs 4'33" (quatro minutos e trinta e três segundos), uma eminente composição dividida em três partes, feita para ser tocada em qualquer instrumento musical e, acredite, nenhuma nota! Seria uma música do silêncio? Vamos ver...


O que ouviram? 

Vou começar dizendo o que eu ouvi. Em ordem de aparição: o tiquetaquear de meu relógio de pulso; o pingar da chuva na calha; o roncar de minha barriga esfomeada; o ir e vir de minha respiração; o correr do carro na rua; o tossir de alguém (por que as pessoas tossem tanto?); o bater violento da porta do vizinho; o gritar insistente rua por alguém que não responde; o "creck" do estalar de meu pescoço; o cochicho ocultado de algum segredo; o tilintar de panelas do primeiro andar. 

Ao longo desses quatro minutos e trinta e três segundos, tudo ficou claro (e ruidoso): não era silêncio o que eu tinha. Era como se eu tornasse o meu mundo sonoro em estético, e a arte está aí. Tudo começou a se tornar musical, até os sons mais banais do cotidiano, como o barulho da rua e do meu corpo. O mundo bruto, afinal, transformou-se em arte. E nós próprios é que fazemos parte dessa obra-prima. 

Domingo

O varal dita a moda

Nós fugimos, mas sempre chega a hora de lavar a roupa suja. Não aquela coisa de brigar com alguém em público, mas no sentido literal mesmo: fazer o ritual da máquina de lavar. Caçar as roupas espalhadas pela casa e ver se já tem o suficiente para encher a máquina, separar as pretas das brancas, medir a quantidade de sabão em pó e amaciante, ligar a máquina, esperá-la sacolejar, ensaboar e centrifugar tudo para finalmente pegar as roupas e estendê-las no varal. 

Por falar em varal, Portugal está entre os países (se não for "o" país) com o maior número de varais públicos por metro quadrado. Caminhar pelas ruas daqui é olhar para as janelas e varandas e achar que uma meia dúzia de meias e casacos irá cair na sua cabeça. E olhar para o chão e encontrar uma porção de prendedores quebrados - se olhar com atenção, até dá para achar algum inteiro e levá-lo para casa.

Os varais de Portugal são um espaço democrático. Roupas de marca chique convivem em paz ao lado de panos comprados a poucos euros nas lojas dos indianos. O varal é tendência. O varal dita a moda. E mostra tudo: até as peças íntimas que escondem as vergonhas do corpo.  

Passo pela Rua do Comércio do Porto e sinto perfume de roupa limpa. Rosa, lavanda, limão. No segundo andar do primeiro prédio, uma senhora estende as camisolas de dormir; no terceiro andar do prédio da frente, um jovem com cara de universitário põe as calças de ganga (jeans) para secar; seu vizinho, homem de meia idade que compartilha da mesma corda do varal, tira as toalhas que já secaram; no final da rua, uma rapariga procura prendedores no cestinho de plástico. 

Saio para andar e sempre desvio meu olhar para o alto, só para ver se os varais estão coloridos ou se tem roupa que eu gostaria de vestir. Tenho disso de olhar os varais para arejar a cabeça e me sentir, de certa forma, limpa; renovada. Esvazia a cabeça. Chega a dar vontade de ser roupa e ficar estendida, depois de tanto sacolejar de problemas dentro da máquina de lavar, fixada lá no alto, às vezes, em perigo, observando os que passam na calçada, sem pressa de secar. Com sorte, bateriam algumas rajadas de vento e eu daria para voar. Até começar a chover e ser recolhida para dentro, às pressas e aos gritos. 

Varais em Lisboa, Porto e Coimbra

Segunda-feira

Concerto

Era domingo e saí para caminhar no final de tarde de uma Europa aprilina; horário de verão, sol com preguiça de ir embora. Quando ouvi, da sacada do primeiro andar de um prédio qualquer, o barulhinho de sinos e pedras batendo. O vento estava chegando junto ao tilintar de um som relaxante em uma rua que já tinha os comércios fechados. Espalhavam-se boas energias.

No terraço da casa da minha voinha, há um mensageiro do vento em cada prego, quina ou viga livre no telhado: de bambu, de metal, de ágata colorida, com moedas, luas e estrelas, com casa de vespa, com nós nos fios, faltando peça no móbile. Qual mensagem o vento poderia me trazer naquele final de tarde?

Lembrei-me, então, de Dona Tetê ouvindo a sinfonia desordenada dos mensageiros, um em cada tom. Da vibração dela por sentir o sopro da natureza no rosto, dizendo que viria chuva em breve. Do som das roupas balançando no corpo e no varal. Do timbre da voz dela dizendo que vento acalma o espírito. Do silêncio do abraço de vó. Senti-me protegida pela corrente de ar. E segui meu caminho endomingado. 

Domingo

Cavaleira

Fez que comandava a tropa de cavalos que iria combater o exército inimigo. Armadura, espada que foi de seu pai, cabelo ao vento, palavras de ordem de uma corajosa guerreira. Os adversários se aproximavam rapidamente, bravura da grandiosa capitã, sangue nos olhos, foco, determinação, confiança, pocotó-pocotó... 

- Ariel, vamos pra casa, já vai escurecer! 

Praça em Braga, 2012. 

Sábado

Quase uma pauliceia desvairada

A viagem de férias de Páscoa foi a Lisboa. Viagem corrida e com mapa ansioso para ver tudo.
Chegamos meio perdidas e um tanto desorientadas com as três únicas horas de sono que tivemos. Madrugada. A capital portuguesa ainda iria demorar a dar os primeiros sinais do despertar.

video

Demos um tempo. Com horário de verão, o sol demora mais para aparecer e as ruas ainda estavam muito escuras. Na Estação Sete Rios, já havia gente correndo atrás de metro e comboio, em passos mais longos do que o ponteiro dos segundos. Senti-me na correria da minha saudosa pauliceia desvairada. Uma Sampa sem mar. 

Seguimos. Ruas desconhecidas, informações em cafés e padarias que começavam a abrir: Avenida da Liberdade, rapariga? É muito longe para ir a pé. Peguem o metro! Pegar o metro? Estávamos há aproximadamente meia hora de caminhada... pois, pois... quando falo que andava trinta minutos para pegar o metrô em São Paulo os portugueses quase infartam. Acham um absurdo!

Gastamos as pernas e nos encontramos, enfim. Ruas grandes, prédios enormes, empresas quilométricas, lojas pomposas, shoppings monumentais, muitos carros, táxis, autocarros... trânsito? Já estava me desacostumando com esse cenário! 

Passamos a Marquês de Pombal, tomamos um café reforçado e encontramos a Avenida da Liberdade. Rua da Prata, Rua do Ouro, Rua dos Fanqueiros... chegamos à Praça do Comércio. Quando nos deparamos com o Rio Tejo...

Será clichê se eu disser que perdi o ar? 


A cidade de Lisboa; Rio Tejo ao fundo. 
Foram dois dias apaixonantes em Lisboa. Pela história e importância da cidade, pela semelhança com São Paulo, por se respirar a literatura de autores portugueses consagrados, desde as inspiradoras tágides às várias humanidades reunidas em formas de heterônimos.  

Conseguimos fazer tudo o que nossos rabiscos no mapa indicaram que era prioridade: Castelo de São Jorge, Sé, Panteão, Chiado (com direito à foto de turista ao lado da estátua do Pessoa, óbvio!), Alfama, eléctricos, Bairro Alto, Basílica e Jardim da Estrela, Casa Fernando Pessoa, Oceanário, Jerónimos, Doca e Torre de Belém... ufa!
Os "eléctricos" lisboetas, cortando as ruas por todo canto. 
Fomos com a promessa de voltar. E de decifrarmos com mais calma as ruas que li nas crônicas de Saramago na Bagagem do Viajante. Poucas horas depois, vimos da estrada a Ponte Dom Luís I e o rio pintado de ouro. Chegamos no Porto. Sensação de abrigo. E de diário de bordo cheio. 

Terça-feira

Viajar de comboio

Nesses dois meses que estou em Portugal, já consegui fazer pequenas viagens às cidades mais próximas do Porto. Os municípios ao norte estão sendo, por enquanto, nossos principais destinos: Guimarães, Braga, Aveiro e, por último, Coimbra. Fazemos tudo de comboio, os trens de Portugal. 

A Caminhos de Ferro Portugueses - CP - corta o país inteiro, de norte a sul; de Porto a Faro; de Évora a Guarda; de Valença a Lisboa. Basta escolher o lugar (o sítio!) que quer ir, com que rapidez quer chegar e desembarcar na estação mais próxima. Ah, se o Brasil também fosse inteiramente transpassado por linhas ferroviárias... 

Algumas viagens são um bocadinho mais caras, sendo mais em conta viajar de autocarro (ônibus), por exemplo, ou de avião, quando o plano é viajar pela Europa, em companhia aéreas low cost. E, é claro, que a viagem também fica mais cara se escolher classes mais luxuosas ou trens mais rápidos, como o Alfa Pendular. 




A extensão da malha ferroviária da CP alcança, hoje, os 2800 km e transporta mais de 130 milhões de passageiros por ano. Em 1856, foi realizada viagem inaugural em trecho que compreendia Lisboa e Carregado. Daí para frente, são mais de 150 anos de história e obras de ampliação da malha ferroviária.



Os trens são muito confortáveis e as estações são abertas. Nada de catracas! Em viagens menores, basta comprar ou recarregar o título do bilhete CP em máquinas de venda automática ou nas bilheterias e validá-lo quinze minutos antes da hora prevista de partida do comboio. As regras aqui são muito rígidas: fiscais passam pelos vagões para conferir se seu bilhete foi realmente validado e, se não foi... a multa é de cem vezes o valor do título! O que tem de turista desinformado que leva bronca e vai parar na delegacia não é brincadeira... 

Pois, pois, sigamos em frente. Bilhete validado, diário de bordo na mochila, câmera carregada e um lanche para comer no caminho. Próxima estação: descobrir Portugal!  

Quarta-feira

Desjejum

Gosto de escrever com fome por sentir a necessidade de urgência. A fraqueza se mistura ao ronco da barriga, ocupado por um sentimento de força derradeira. É como ficar sentado, em jejum, na fila de espera da coleta de sangue e mentalizar o seu café da manhã que não foi. Ansiedade, pressa, contagem regressiva. Todo sentimento de angústia concentrado em uma senha que demora para aparecer no placar eletrônico. Escrevendo com fome, eu me alimento de palavras. Mastigo algumas letras, engulo frases. Saliva. Esôfago. Estômago... 
E acabo por me sentir satisfeita. 

Segunda-feira

escrita automática

impulso.olho a tela branca e meus dedos parecem começar a se movimentar no teclado, tec-tec-tec... penso que não posso me sentir pressionada. escolhi um lugar calmo para deixar a criação artística ser despejada por meio de meus dedos. não posso voltar atrás no que escrevi, tampouco corrigir ou modificar algo que já foi feito. rapidez. devo ter pressa. e não posso recorrer ao dicionário. tudo deve vir como um pesado suspiro. alívio! fluxo de consciência. concentração. o que Breton estaria fazendo agora? fecho os olhos. enxergaria melhor assim? a inspiração não vem e, ao mesmo tempo, não sei se consigo parar de escrever. as letras surgem, uma após a outra e não acho que já esteja na hora de terminar o parágrafo. penso em colocar vírgulas... não... não é hora de pensar em vírgulas. devo me apressar, sinto-me aflita. explosão. quero GRITAR. faltam-me ideias. e já começo a ter preguiça de escrev...

Sábado

Limbo entre o hoje e o amanhã

Sou daquelas que vive desrespeitando a meia-noite: por dormir depois dela, por correr para pegar o último metrô de São Paulo, por ignorar o temor ao lobisomem, a luz das velas da Missa do Galo, a delicadeza do sapato de cristal de Cinderela. Vejo-me confusa diante dela por não saber me referir às datas corretamente. Ainda é ontem? Ou já é amanhã? Até que perguntei ao Matheus o que é a meia-noite e ele me disse que é quando tudo é um projeto. Mas, quais são os planos? Depende de quem para ser um protótipo irrepetível? Serão vinte e quatro horas que valerão à pena? Quem poderá garantir que um novo dia virá novamente, afinal? 

As garantias me fogem. Olho o relógio: já é meia-noite e um e só o que posso fazer daqui para frente é amanhecer. 

Quinta-feira

Cynthia

É a mina que divide o apê comigo. Que divide as despesas, os afazeres domésticos, as coincidências, os estudos, as aflições, as broncas, as dúvidas, as produções literárias, as fomes, os pasteizinhos de nata, as saudades de casa, os “papos cabeça”, as risadas, as viagens, os sonhos, os abraços.

O nome dela é um verbo no passado. Uma afirmação.

Mas, sim, eu sinto: no presente. Sinto que arranjei algo além do distante roommate. Sinto que o acaso (também dá para falar em mérito?) me rendeu uma excelente parceira para descobrir a terra de nossos colonizadores. Sinto que a amizade ainda é o sentimento que mais deve ser preservado neste mundo de ponta cabeça. Sim, eu sinto, como sinto. E agradeço feliz – e já antecipadamente – pelas boas lembranças que sei que guardaremos em nossas melhores histórias. Relembrando, em dupla, todas as inquietações nostálgicas que sentíamos. E que vamos sentir.

Arredores da Igreja de São Francisco, centro histórico do Porto (2012). 

Terça-feira

A perder-se pelas ruas do Porto

Já não queremos mais saber de mapas. Ganhamos um da Universidade, logo na semana que chegamos, e o usamos algumas vezes. A cidade inteira estava ali representada. De nada (ou quase nada) adiantou, pois nos perdíamos até com as indicações das ruas na carta geográfica cheia de dobras e rabiscos. Aos poucos, fomos nos abdicando dele e aprendemos a nos virar pelas vielas e travessas confusas do centro histórico. Foi assim que fomos a Guimarães em um domingo ensolarado: na “caruda”. Cheias de intuições. A procura de novidades e um castelo medieval.  

Os portugueses têm um jeito muito particular de explicar os caminhos. A princípio, de maneira completamente confusa aos ouvidos brasileiros, trançando linhas imaginárias com as mãos, perguntando aos colegas qual seria a melhor alternativa e discordando dos outros, principalmente. “Não, rapariga, tu estás errada. É muito melhor se as meninas forem pelo outro caminho. Estás a confundi-las!”.

Se vir a Portugal, não se assuste (e tente segurar o riso) ao pedir informações e uma situação semelhante a esta acontecer:
- Por favor, poderia me informar onde fica a Rua de Passos Manuel?
- Siga por esta rua. Verá a Rua de Sá da Bandeira e logo a direita uma praça. Certo? Pronto! Não deves seguir em frente e nem virar na praça, mas, ir à esquerda, que já é a Rua de Passos Manuel...

E assim, nos perdemos nas incansáveis ladeiras, calçamentos de pedras, ruas que viram escadas e chãos com o trilho dos bondes. E assim, vamos descobrindo novos caminhos, novos cafés, novas lojas com “saldões”. E assim, nessas já quatro semanas que moramos aqui, vamos descobrindo Porto. Deixando as ruas nos levar.  

Esqueça os mapas. Porto permite isso. 


Rua no centro histórico do Porto, março de 2012.